Seminário Nacional de Elaboração de Subsídios

Processo Pedagógico de Reflexão que inspirou a Coleção Na Trilha do Grupo de Jovens: De ônibus espacial para ônibus urbano circular

Diferentemente do que os documentos das Pastorais de Juventude do Brasil sugerem, o processo de formação de um/a jovem é feito em grupo, mas não é grupal: ele é pessoal, absolutamente personalizado. Embora façam parte de sua caminhada freqüentando um mesmo Grupo de Jovens, cada jovem traz consigo fortes conteúdos e parâmetros de formação dados pela sua história, sua condição de vida, seu ambiente familiar, suas oportunidades, bem como pelas suas dores, violências e frustrações. O Grupo de Jovens e o programa da Pastoral de Juventude não anulam, apenas dialogam com essa trajetória, com resultados imprevisíveis, incontroláveis e impatenteáveis, isto é, não atribuíveis a nenhuma das influências sofridas, positiva ou negativamente, de modo isolado.

O processo, portanto, acontece no corpo e na história de cada jovem. O modelo pedagógico de educação não formal proposto pelas Pastorais de Juventude funciona como o percurso de um ônibus circular, que trafega no coração de uma grande cidade, sem ponto de partida e sem ponto final rigidamente determinados. O ponto inicial é a hora do embarque de todo passageiro, onde quer que ele esteja. O ponto final é quando esse passageiro sente que chegou onde devia chegar, aciona o alarme, pede parada e desembarca.

A comparação da vida do grupo com as etapas da vida humana, organizada pelo Pe. Floris nos anos 80 e que está na base do pensar o Processo de Formação nas Pastorais de Juventude até hoje, é uma idéia interessante, inteligente, otimista mas sem correspondência na realidade. Nem naquela época os grupos funcionavam de maneira ideal. Sempre foram meio “casa de passagem”. A idéia do grupo em gestação que avança até a maturidade ainda faz o estrago de colocar as questões da integração do grupo e das relações interpessoais como algo infantil, iniciante, e as questões políticas e a militância como ápice, destino final, assunto de gente madura, numa arquitetura positivista, ascendente e um pouco ingênua. Conhecemos muitos e muitas jovens militantes. Mas onde estão ou onde estiveram os tais grupos de militantes?

Se ao invés de cápsula fechada que faz a viagem planetária da iniciação à militância, compreendemos o Processo Pedagógico das Pastorais de Juventude como um sistema horizontal e aberto, a tarefa do grupo (o ônibus) é ser permanentemente um ambiente acolhedor para com todo novo passageiro que pede parada e embarca. Condutores, cobradores e demais passageiros são co-responsáveis por fazer que o percurso de cada um e de cada uma seja agradável, confortável e capaz de promover crescimentos e deslocamentos: ninguém entra num ônibus para ficar no mesmo lugar.

Esse circular das Pastorais de Juventude também não é um veículo sem rumo: modelo de Igreja, projeto político, modelo de sociedade, estatuto das relações interpessoais e cósmicas e várias outras escolhas funcionam como o letreiro dos ônibus. Quem embarca tem várias indicações do destino a que esse coletivo se propõe. Um ou outro, iletrado ou desatento, pode tomar o ônibus “errado”. Paciência! Na próxima parada desce, caminha à pé de volta à estação onde, hoje mais que nunca, há ônibus para todo lugar e para tipo de viagem. É possível, porém, que o “clima” do ônibus faça um ou outro mudar de desejo/destino e decidir por permanecer naquela direção. Decisão que só uma pessoa pode tomar: o próprio passageiro.